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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

Havia uma curiosa teoria que circulava há uns meses e que rezava assim: no estado em que o PS está a deixar o País, o estranho é que o PSD não tenha já uma maioria absolutíssima nas sondagens. Curiosamente, ainda não vi os proponentes dessa teoria vir a terreiro menorizar o resultado eleitoral do PSD: provavelmente estão roucos de tanto se gargarizarem com empates técnicos. Mas conhecendo-os como os conheço, sei bem que voltarão à carga dentro de dias, pelo que lhes respondo por antecipação.

 

Estas eleições eram, na realidade, muito difíceis de ganhar para o PSD. Em primeiro lugar, recordemos que o Partido Social Democrata estava inscrito numa tendência descendente desde meados dos anos 90: depois dos 50% conquistados em 1987 e 1991, logrou obter 36% dos votos em 1995, 32% em 1999, 40% em 2002 (resultado outlier que resultou de uma campanha contra um PS abandonado pelo seu líder), 29% em 2005 e 2009. Este enfraquecimento eleitoral num período tão longo não pode ser visto apenas como uma sucessão de azares: na realidade, mostra-nos um partido que perdeu enraizamento eleitoral e que portanto, já parte em desvantagem quando é dado o tiro de partida eleitoral. A figura abaixo, roubada ao Pedro Magalhães, mostra a dimensão dessa desvantagem:

 

 

Em segundo lugar, recordemos que o PSD abandonou - um pouco de moto próprio, mas muito também por invasão socialista - aquele lugar do espectro ideológico onde em Portugal se costumam ganhar eleições, e que se pode resumir como "tanto Estado quanto possível e tanto mercado quanto necessário". Foi a tresleitura do Estado possível pelos socialistas que nos trouxe à bancarrota, criando a oportunidade para que se ganhassem eleições noutro lugar: "tanta sociedade quanto possível e tanto Estado quanto necessário". Mas essa mudança, que consiste em puxar o eleitorado para um novo locus ideológico em vez de moldar o discurso às preferências do eleitor mediano, não é fácil - é mesmo muito difícil. A figura abaixo (guess what - roubada ao Pedro Magalhães) mostra bem o quanto a agenda reformista com a qual o PSD ganhou as eleições - sem nada esconder ao eleitorado, como o reconhece o insuspeito Daniel Oliveira - estava afastada das preferências do eleitor mediano há apenas dois anos.

 

 

Em terceiro lugar, o PSD disputou estas eleições contra um primeiro-ministro em funções - e que tinha chegado ao exercício das suas funções por via eleitoral. Como o nota Henrique Raposo aqui, nunca na história da nossa democracia - na realidade, nunca na nossa história tout court - um chefe de governo recandidato tinha perdido eleições. Em Portugal os partidos têm perdido eleições quando os seus líderes eleitos atiram a toalha ao chão, nunca antes. E note-se que José Sócrates não apenas não atirou a toalha ao chão como não se coibiu de usar todas, mas todas as vantagens de estar no poder para melhorar as suas chances de vitória. O PSD teve de fazer campanha não contra outro partido, mas contra todo um governo que se enrolou na bandeira nacional enquanto passava as culpas da bancarrota para os traidores da oposição.

 

Temos aqui três pesados e estruturais factores de derrota do PSD: desenraizamento eleitoral; afastamento das preferências do eleitor mediano; posição de challenger contra PM em exercício. E no entanto, o PSD ganhou as eleições, de forma folgada e concludente. Note-se que o PSD subiu mais de 10 pontos percentuais em relação a um resultado obtido há apenas 20 meses: não se via uma variação tão importante num resultado eleitoral em Portugal desde que o PS subiu de 30 para 43% entre 1991 e 1995. Como explicar esta ascensão impressionante do PSD?

 

Claro que as razões avançadas pelos teóricos da maioria absolutíssima têm aqui considerável peso: desgaste do primeiro-ministro e do governo, péssimos indicadores económicos, etc. Mas também se sabe que a responsabilização do governo por estes resultados não foi inequívoca, fruto da habilidade com que os governantes socialistas souberam culpar a oposição, os mercados, os especuladores, a Frau Merkel, os gregos, os irlandeses, os pepinos espanhóis, por tudo o que de mau tem acontecido.

 

 

A vitória do PSD não se explica, portanto, apenas pelo voto de castigo no PS - embora este tenha existido. Explica-se também - e a meu ver sobretudo - porque o PSD teve a coragem de mudar de estratégia, de mudar de discurso, e de mudar de geração. Mudar de estratégia ao deixar de apostar na ideia de competência herdada do cavaquismo e assumir de novo um programa reformista consequente e arrojado. Mudar de discurso ao lateralizar a confrontação moral com o socratismo e focar-se numa alternativa de verdade e de esperança para os portugueses. E mudar de geração ao escolher um líder que não esteve associado a experiências de governação passadas nem ostenta "denominação de origem controlada" em nenhum dos ismos históricos do PSD. Três mudanças que têm uma cara: a de Pedro Passos Coelho.

 

 

 

3 comentários:
De Naçao Valente a 6 de Junho de 2011 às 18:28
A não ser que não tenha mais nada de interessante para dizer, não precisa de se enrolar em justificações e mais justificações para justificar a vitória, como a estafada teoria de "quem levou o país à bancarrota".
Ganhou, ganhou. Seja Feliz, porque quanto ao país duvide que o seja. O tempo se encarregará de o confirmar.
MG


De eirinhas a 7 de Junho de 2011 às 11:35
O que seria normal num país normal é que tivesse seguido o exemplo de Zapatero que se portou com grande dignidade e,longe de estar na nossa situação.O que seria normal num país normal é que a nossa população se comportasse como a espanhola.Foi com esta anestesia que demos 20 anos a mais a Salazar.


De Miguel Magalhães a 7 de Junho de 2011 às 15:20
Excelente comentário, vou citá-lo no meu blogue www.enxuto.org
Miguel Magalhães


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