
A DESCER
José Sócrates. Os portugueses fartaram-se de José Sócrates, das suas contínuas promessas por cumprir, do défice monstruoso, dos 700 mil desempregados, da pesada herança que deixa ao sucessor no palácio de São Bento. Esta legislativa, como era de antever, funcionou como um plebiscito ao homem que encabeçava o Governo desde 2005. O veredicto das urnas foi claro: o pior resultado do PS dos últimos 20 anos. Deixando sem margem de manobra o homem que ainda há bem pouco tinha recebido uma votação esmagadora no mais inútil e mais patético dos congressos do seu partido.
Francisco Louçã. Dir-se-ia que estas eleições seriam ideais para capitalizar os votos de descontentamento no Bloco de Esquerda. Nada disso aconteceu: os bloquistas sofrem uma pesada derrota que os faz reduzir para metade o grupo parlamentar eleito em 2009. Consequência directa dos clamorosos erros estratégicos do Bloco que foram sendo cometidos nos últimos meses e que mereceram aqui diversas críticas. O erro principal foi a tentativa de copiar o Partido Comunista, esgotando-se numa força de mera oposição, sem propor qualquer solução governativa. Louçã é o rosto da derrota eleitoral do BE.
Ferro Rodrigues. Regressado de Paris, foi o maior trunfo de Sócrates na elaboração das listas eleitorais. Cabeça-de-lista do partido da rosa, teve um discurso errático durante a campanha, em que destacou como um dos principais defensores de uma solução de bloco central - repetindo, aliás, um apelo que já fizera em 2009. Conduziu o partido a uma pesada derrota na capital, frente ao PSD encabeçado por Fernando Nobre, e perde assim margem de manobra para influenciar um cenário de sucessão nas hostes socialistas.
Participação eleitoral. Apesar da profunda crise em que o País mergulhou, com um cenário iminente de bancarrota, demasiados eleitores portugueses continuam divorciados das urnas. Estas foram, aliás, as legislativas menos participadas em quase quatro décadas de regime democrático: 41% dos inscritos recusaram votar. Esta questão faz suscitar outra, cada vez mais premente, sobre a profunda desactualização dos cadernos eleitorais. A percentagem oficial corresponderá à percentagem real?
Sondagens. Foi vergonhosa a tentativa de manipulação dos eleitores através de sucessivas sondagens que apontavam para "empates técnicos". Nunca houve tantas sondagens numa campanha e nunca as sondagens falharam tanto. Os resultados das urnas demonstraram que não podia haver situações de efectivo empate técnico a tão poucos dias do exercício do voto. Aqui está um tema de urgente reflexão por parte dos responsáveis das empresas de sondagens e por parte dos responsáveis editoriais que as divulgam.
Pequenos partidos. Alternativas? Que alternativas? Os pequenos partidos continuam sem mobilizar os portugueses. Não há justificação para que muitos deles, que nunca conseguiram eleger ninguém ao longo de sucessivas eleições legislativas e autárquicas, continuem a receber apoios do Estado, nomeadamente na realização de tempos de antena eleitorais. A lei deve ser revista nesta matéria fazendo depender esses apoios de números mínimos de votos obtidos nas urnas.
De da Maia a 6 de Junho de 2011 às 03:21
Concordando com muito o que escreveu, quero discordar profundamente com o que escreveu sobre os pequenos partidos.
É claro que muito deles são projectos pessoais, de um grupo cívico, e são pouco mais do que essa tentativa ocasional de protagonismo.
Porém, só se pode afirmar algo semelhante quando terminar a lógica do voto útil, e se alterar o sistema anti-democrático dos círculos eleitorais.
Que sentido faz um sujeito de Portalegre votar no MRPP, ou mesmo no BE? - Funciona como voto nulo... os 1000 votos não acumulam, perdem-se, como se o sujeito nunca tivesse votado. Nenhum de nós poderia votar em Passos Coelho, a menos que vivesse em Vila Real.
Os deputados são nacionais - a representação local deveria ser feita numa assembleia de presidentes de câmara, caso houvesse necessidade disso!
Essa divisão em círculos só favorece os grandes partidos e a lógica do voto útil. O exemplo mais claro dessa filosofia de espartilho é inglês, e levou a uma bipartidarização tendencial.
A maioria dos portugueses faz contas pelo mal menor, e não vota propriamente no preferencial... esse luxo eventual de poder escolher entre 5 partidos só se dá nalguns distritos, ao contrário do que se propaga, em vários casos os distritos nem 5 deputados têm. Por isso, é inútil votar CDS em Beja, ou CDU em Bragança... os votos dessas pessoas contam zero!
O problema que levanta é outro, e também importante: o da redistribuição dos actuais círculos eleitorais. Faz pouquíssimo sentido haver hoje um círculo como o de Portalegre que permite apurar apenas dois deputados.
Aquilo a que eu me referia é à subvenção estatal a partidos que nunca elegeram ninguém. É o caso do MRPP que ultrapassou a fasquia do 1% e que por via disso receberá 3,51 euros por cada voto obtido durante os próximos quatro anos. Este aspecto da lei deve ser revisto passando a contemplar apenas novas forças políticas, como o PAN, que agora também ultrapassou essa barreira (uma estreia interessante, em termos numéricos). A partir de um certo número de anos sem nunca conseguir eleger ninguém o partido devia deixar de receber verbas públicas, que são bem mais necessárias noutros domínios.
De da Maia a 6 de Junho de 2011 às 14:35
Continuo a achar que não se devem confundir deputados para um parlamento nacional com representação local.
Se houvesse um círculo único, bastavam 0.5% (até menos...) para eleger um deputado, e assim sendo não me escandaliza haver subvenção para partidos com 1%. De facto, isso só significa que o método tem essa particularidade de anular algumas representações nacionais. Como Paulo Portas disse, e bem, reduzam-se os deputados, mas formando um círculo único nacional!
Já que ninguém mais o fará, pode fazer o exercício de aplicar o método de Hondt aos resultados totais.
Eu fiz, e daria o seguinte:
PSD: 96 deputados
PS: 69
CDS: 29
CDU: 19
BE: 12
MRPP: 2
PAN: 2
MPT: 1
isto daria uma distribuição mais justa a nível nacional e mais enriquecedora para o parlamento.
De Tiago Órfão a 6 de Junho de 2011 às 04:40
Os partidos já estão sujeitos a um mínimo de votos para poderem ter acesso a uma subvenção anual, valor mínimo aliás que o PAN conseguiu atingir na primeira vez que foi a votos, o que é um feito notável, pense-se o que se quiser dos méritos desse partido.
Os apoios do Estado às campanhas eleitorais também estão sujeitos aos resultados eleitorais. Quem utiliza vários milhões de euros do Estado em actividades partidárias são os grandes partidos, não os pequenos. O sistema já favorece em muito o status quo, para quê restringir ainda mais os pequenos partidos?
Acabo de pronunciar-me sobre o PAN e as subvenções na resposta anterior. Há pequenos partidos e pequenos partidos. O da doutora Carmelinda, por exemplo, não faz sentido nenhum. Funda-se no Bloco, funda-se na CDU, mas deixe de "disputar" eleições para as quais, como já se viu amplamente, jamais elegerá seja quem for.
as empresas de sondagem também ficavam bem nesta lista
Estão lá, João. O ítem 'sondagens' é quase todo dedicado a elas.
UUUPPS...nem reparei!!sorry..grande calinada
De Guillaume Tell a 6 de Junho de 2011 às 10:27
Será que Louçã se demitirá?
Sem Louçã o Bloco desagrega-se a alta velocidade.
De Guillaume Tell a 6 de Junho de 2011 às 11:25
E com ele também.
Com ele vai mais devagarinho.
Caro Pedro,
como fui cabeça de lista pelo distrito de Aveiro do Partido da Terra, só posso discordar do olhar de cima que deu sobre os pequenos partidos.
Mesmo assim, com respeito, algo decepcionado,
um abraço,
Daniel.
Lamento, Daniel, mas a regra que defendo acima só se aplica aos partidos que se candidataram a muitas eleições sem jamais conseguirem nenhum eleito - digamos, num prazo de 20 anos. Refiro-me, concretamente, a partidos como o POUS e o MRPP. Isto já para não falar dessa fraude política que é o PEV, existente há quase 30 anos sem nunca ter concorrido autonomamente a uma eleição, contando sempre com o PCP como barriga de aluguer.
Um abraço.
Comentar post