1.
Dominique Strauss-Kahn pernoita em quartos a US$3.000 (1.900€) por noite. Un petit rien para o chefe do FMI, un peu trop para um candidato à presidência francesa. Há uns anos, também se descobriu o preço faramineux dos sapatos do MNE francês da altura, e passou a dizer-se que Roland Dumas calçava um SMIC (ou salário mínimo) em cada pé: tanto bastou para que Dumas, politicamente, ficasse por aí (e depois disso foi condenado, comme on l'imaginait, por razões de simple escroquerie). Suponho que em Portugal, país de muito mais longa e profunda tradição democrática, perguntar a um responsável político - daqueles a quem se desconhece fortuna própria ou familiar, e que acaba alegremente (i.e., tecnocraticamente) com apoios sociais a cidadãos e cidadãs que não têm dinheiro para acabar cada mês - sobre o custo dos trapos que põe em cima, ou do apartamento em que gasta as horas, seja visto como uma intolerável intromissão na sua sacrossanta esfera pessoal.
II
Não foi no Sofitel de Strauss-Kahn, mas no Plaza Athénée, da Madison: Jacqueline née Bouvier, Kennedy e depois Onassis, ficou lá uma vez, nos anos 60; como não gostou da decoração do quarto, mandou o hotel mudá-la, for the sake of one single night. Uma avó, de quem eu gostava muito, e tinha a pachorra de ler biografias de personagens tão eminentes, contou-me indignada esta história, que achava inaudita, porém não o era: o Barão von R., a acreditar em Claudio Magris, viajava sempre com uma equipagem de madeireiros e serradores atrás; de cada vez que espreitava uma perspectiva notável, mandava-a dar ao machado e alargar-lhe as vistas; e vistas estas, amplamente vistas, ala até à próxima, não mais que uns minutos em cada lugar.
(Publicado também no 5dias)