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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
por Pedro Correia

 

 

DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PAULO PORTAS

 

Pela primeira vez, que eu me lembre, José Sócrates perdeu um debate eleitoral. Foi esta noite, nos estúdios da TVI, perante um Paulo Portas em boa forma que lhe disse o essencial, olhos nos olhos: este primeiro-ministro "vive na estratosfera". Vive num país só dele, que nega a realidade quotidiana dos portugueses: a dívida pública duplicou em seis anos, há hoje quase 700 mil pessoas sem emprego, o "estado social" tornou-se uma figura de retórica, Portugal viu-se forçado a estender a mão à caridade internacional.

Incapaz de reconhecer um erro, dando continuamente o dito por não dito, sublinhando mais de uma vez que o Governo"deu o seu melhor", Sócrates começou o debate com o ar mais cordato deste mundo: "abertura" e "diálogo" foram as primeiras palavras-chaves do seu discurso. "Portugal precisa de um governo forte", declarou o líder socialista. Nem parecia o mesmo que foi incapaz de esboçar uma coligação pós-eleitoral quando venceu as legislativas de 2009 muito longe da confortável maioria absoluta de que dispôs nos quatro anos anteriores.

Sócrates nunca até hoje tinha ouvido em directo, na televisão, algumas das frases com que Portas o brindou neste frente-a-frente bem moderado por Judite Sousa. Frases que revelam uma realidade elementar: o líder socialista, chefe do Governo desde Março de 2005, "é o político responsável pelo estado a que chegámos". Mais: "Este primeiro-ministro vai perder as eleições porque as pessoas vão votar com os bolsos quase vazios."

Sócrates não tardou a perder o ar de bonomia: a natureza de "animal feroz" acaba sempre por vir à superfície neste homem incapaz de estabelecer pontes com adversários. E com isto estragou irremediavelmente a imagem de indivíduo dialogante que levara para este debate. Apertado por Portas, não resistiu a um número de fácil demagogia televisiva: exibiu uma pasta vazia dizendo que aquele era o programa eleitoral do CDS, que "ainda não existe". Com isto irritou o líder democrata-cristão e marcou certamente alguns pontos junto dos telespectadores. Mas também confirmou que não está minimamente vocacionado para o diálogo político. Sendo aliás ele o campeão dos programas eleitorais por cumprir, esta deveria ser a última das suas opções argumentativas. Lembram-se ainda daquele socialista que prometia criar 150 mil empregos, inaugurar as linhas ferroviárias de alta velocidade e pôr Portugal a crescer 3% ao ano?

 

...................................................................

 

FRASES

Sócrates - «Da parte do PS, os portugueses não esperarão nenhuma atitude de radicalismo e sectarismo. Não deixaremos de colaborar, de definir espaços de diálogo e de compromissos com os dois partidos que subscreveram o programa da troika, com o qual o País está comprometido.»

Portas - «Portugal encontra-se numa situação de protectorado.»

Sócrates - «O Governo não pode ser acusado de não ter feito o seu melhor.»

Portas - «Eu nunca disse que não seria primeiro-ministro sem o FMI.»

Sócrates  - «O senhor deputado e o seu partido contribuíram para uma crise política ao chumbarem o PEC IV.»

Portas - «A história não começou há seis semanas: começou há seis anos, com José Sócrates. E começou porque houve uma política irresponsável.»

Sócrates - «Eu invisto no TGV, não invisto nos submarinos.»

Portas  - Para duas pessoas terem uma discussão útil é preciso que habitem a mesma realidade. O candidato José Sócrates não habita a realidade há muito tempo.»

Sócrates - «O acordo [com o triunvirato, vocábulo que Portas prefere a troika, e muito bem] preserva o modelo social em que queremos viver.»

Portas - «O candidato José Sócrates é muito competente a manipular mas não é muito competente a governar.»

Sócrates - «Paulo Portas nunca deu um contributo para que possamos reduzir a dívida, para que possamos reduzir o défice.»

Portas - «Enquanto o senhor dizia que a economia ia crescer, nós víamos a recessão a chegar.»

Sócrates  - «O programa eleitoral do CDS não existe.»

Portas - «O senhor, como candidato, mente mal.»

Sócrates  - «Não lhe admito isso.»

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Sócrates-Portas da campanha legislativa de 2009.

14 comentários:
De Daniel Santos a 9 de Maio de 2011 às 23:13
grandes frases de Paulo Portas.


De Pedro Correia a 10 de Maio de 2011 às 20:30
Portas é um dos maiores frasistas da política portuguesa.


De a.marques a 9 de Maio de 2011 às 23:17
Se me permitir entro com uma ironia:

-Ilusão de maior brilho não há, com Sócrates a dar lustro às botas, na lama onde esfregava os próprios pés.
-Portas pecou por um descuido de bagagem, ao não retribuir com uma pasta de palha, o brinde de uma vazia.


De José Francisco a 9 de Maio de 2011 às 23:24
Foi um excelente debate, parecendo-me que Portas podia ainda assim ter ido um pouco mais longe, desmascarando as contradições e a encenação permanente de Sócrates, a Judite de Sousa pareceu mais distendida, menos funcionária.


De Pedro Correia a 10 de Maio de 2011 às 20:29
Também gostei do debate: Sócrates e Portas, aliás, são dois dos políticos portugueses mais calejados nesta matéria. Gostei igualmente da prestação de Judite Sousa, que moderou bem o debate sem se limitar a ser cronometrista.


De Jose Dias a 9 de Maio de 2011 às 23:48
Espero que tenha razão. Eu acho que Socrates foi muito eficaz junto do "povo do estado", a sua base de apoio. E como diz Medina carreira já são 6 milhoes os portugueses que vivem à pala do estado, i.e. do contribuinte.


De Pedro Correia a 10 de Maio de 2011 às 20:28
Esta frase de Portas pareceu-me uma frase-chave: «Este primeiro-ministro vai perder as eleições porque as pessoas vão votar com os bolsos quase vazios.» Certo? Errado? Cá estaremos para voltar a falar do assunto a 6 de Junho.


De Paulo Hora a 10 de Maio de 2011 às 02:23
Não concordo que tenha sido uma vitória do PP.. Era óbvio que seria um debate equilibrado pois tavam e debate os 2 politicos mais hábeis do nosso país.

Acho que é terrivel o PP não ter programa eleitoral antes dos debates e o Sócrates ia pegar nisso quando a Judite o interrompeu.

O PP não respondeu nunca de forma directa ao "voce rejeitou o PEC e aprovou o FMI", deveria ter sido mais claro aí.

Houve lá um momento que achei que o Sócrates ia cair, na parte da "foi pro causa da proposta do CDS que você meteu ai essa frase das pensões no PEC 4", mas o Sócrates simplesmente desmentiu e não tocaram mais no assunto.

Sinceramente acho o Sócrates podia ter falado um bocado das partes boas da governação (educação e desenvolvimento tecnológico) mas contra o lider de um "pequeno" partido com a craveira politica do Portas percebe-se que tenha concentrado o discurso na AUSÊNCIA de ideias e discurso do PP.


De a.marques a 10 de Maio de 2011 às 10:39
O "óbvio" como receita para matar um debate.


De Andre a 10 de Maio de 2011 às 02:37
Caro Pedro, o ar inicial de Socrates mais cordato é obviamente parte da estrategia (de perder um pouco da imagem de animal feroz). E ele terminou bem mais forte que Portas.
Na SIC Noticias deram a vitoria a Socrates.


De a.marques a 10 de Maio de 2011 às 10:41
SIC é SOC


De replica a 10 de Maio de 2011 às 02:49
http://www.facebook.com/video/video.php?v=129858863756416&oid=199008656802992&comments


De António M P a 10 de Maio de 2011 às 08:02
Serás que vimos o mesmo debate? Então essa dos "olhos nos olhos"...
Para o caso, é certo, tanto faz porque em última análise ganharam os dois o tempo de antena para a sua causa comum.


De Pedro Correia a 10 de Maio de 2011 às 20:26
Vimos o mesmo debate, certamente. Com olhos diferentes, certamente também. Estas caixas de comentários servem também para expressar teses em confronto. O blogue ganha com isso.


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